É preciso isolar aqueles que bloqueiam Nyusi

0
517
views

Embora nos últimos tempos comece a ser posta em causa a tese  de  um  presidente da República  telecomandado por uma poderosa ala maconde na Frelimo,  o  presidente do  Conselho Municipal de Nampula, pelo Movimento Democrático de Moçambique (MDM) entende  que, efectivamente, há grupos na Frelimo  que bloqueiam a governação de Filipe Nyusi.

Muhamudo  Amurane,   que  analisava, no nosso jornal, os primeiros dois anos da governação de Filipe Nyusi, começou por dizer que só a sua eleição para presidente  da República foi um acto importante, porquanto  marcou  a  passagem  inter-geracional na liderança do país.

Foi  quando  questionamo-lo se  essa mudança se está ou não a reflectir na governação do país, ao que Muhamudo Amurane, sem rodeios, respondeu que não.

Mas o edil de Nampula  diz que não está decepcionado  com Filipe Nyusi, o presidente  que a 15 de Janeiro de 2015 proferiu um discurso de renascimento. O problema, entende o edil, não reside, necessariamente,  em Filipe  Nyusi,  mas  para  aqueles  que chamou  de grupos fortes na Frelimo que não aceitam as mudanças que, estamos a citar Amurane, Nyusi parece querer empreender.

O presidente da cidade capital da província mais populosa de Moçambique recua ao passado para lembrar que, em Fevereiro de 2015, logo após a sua investidura, Filipe Nyusi manteve um encontro  com o presidente  da Renamo, Afonso Dhlakama, num esforço pela paz que não agradou alguns sectores da Frelimo.

Outro  sinal de um Filipe Nyusi que quer avançar mas que encontra entraves é a abertura do presidente  perante o Fundo  Monetário Internacional (FMI), na recente visita em Washington,   Estados   Unidos   da   América (EUA)  para a realização de uma auditoria   internacional    independente às dívidas escondidas  no  país, anota o edil.

Por isso, Amurane  insta a sociedade a se levantar contra a minoria frelimista que procura sobrepor os seus interesses aos da maioria dos moçambicanos.

“A  expectativa  do  povo  é  frustrada por  grupos  menores  que  defendem seus interesses em detrimento da maioria”, assinala, acrescentando  que é preciso isolar aqueles que bloqueiam o Presidente da República.

Sublinha que um futuro melhor para o país passa, necessariamente, por isolar os grupos na Frelimo que não aceitam a mudança, uma tarefa que, por ser espinhosa, não pode ser apenas de Filipe Nyusi, mas de toda a sociedade moçambicana que contra essas forças se deve levantar de forma vigorosa. Entretanto, ganha corpo nos últimos tempos  a  tese  de  que, na  verdade, Filipe Nyusi não é ingénuo como se pretende fazer passar, nem vítima de supostos poderes interpostos na Frelimo. Argumenta-se que o actual presidente está, efectivamente, alinhado com uma estratégia de mão dura sobretudo no que à guerra diz respeito, sendo  os seus discursos apenas  uma decoração própria da acção política.

A encruzilhada  económica em que o país está mergulhado  foi incontornável na entrevista com o edil de Nampula. Sobre ela, Amurane  evita fazer juízos, por entender que a democracia não é especulação, mas desafia a administração da justiça para que esclareça o que sucedeu com os cerca de USD2  mil milhões, dos quais USD 1.4 mil milhões ocultados.

Sobre a tensão político-militar, reitera não encontrar  argumentos  para as matanças e destruição que continuam a minar o desenvolvimento do país. Chamado  a apontar a solução, foi peremptório  em afirmar que o país clama por  uma  descentralização  político-administrativa, incluindo a eleição de governadores provinciais, pelo que é preciso que se discuta a Constituição da República.

“Há resistência por parte dos dois beligerantes, mas é preciso pressionarmos para que haja abertura para discutir ideias e não pessoas”, remata.

“O que tem de melhor Manuel de Araújo?”

Nos últimos  anos, Manuel  de Araújo, quadro do MDM e presidente  do Conselho  Municipal  de  Quelimane, na Zambézia, tem insistido, na imprensa, que gostaria de ver um MDM mais democrático do que é hoje. Nas vésperas do início da presente legislatura chegou a questionar, publicamente, a indicação do actual chefe da bancada parlamentar daquela formação política, na Assembleia da República, porquanto Lutero Simango, irmão mais velho de Daviz Simango, não saiu do círculo eleitoral que mais deputados colocou no parlamento, que é a Zambézia.

Confrontado com a questão, Amurane disse que não concorda. Para o edil de Nampula, no MDM  há democracia e espaço para todos. Respeita essa colocação de Manuel de Araújo, mas diz que são águas passadas.

A exclusão, nas recentes eleições internas  no  MDM, de  Manuel   de  Araújo  para  a Comissão  Política  do partido,  foi vista como o ponto  mais alto de uma suposta rivalidade entre Daviz Simango e o jovem edil de Quelimane.

Sobre  o assunto, Amurane,  uma  das novas entradas para a Comissão Política do MDM, escusa-se a comentar, alegadamente, porque desconhece o processo. Até porque ele próprio disse ter ficado surpreendido  com a sua nomeação.

Aqui, perguntamo-lo se achava razoável que, nesta fase da sua história, o MDM se desse ao luxo de desperdiçar um  membro  com  capital  político como é Manuel  de Araújo, o que prontamente, desdramatizou.

“O que tem de melhor Manuel de Araújo  em relação aos outros  membros  do  MDM”, questionou,  considerando  o edil de Quelimane  como um membro  normal como outros no partido.

Numa altura em que o MDM em Nampula  acaba de registar uma nova deserção de membros  que formaram o  Movimento   Alternativo   de  Moçambique  (MAMO), depois de uma outra vaga de deserções nas vésperas das eleições gerais de 2014, todos eles a alegarem, essencialmente,  nepotismo e tribalismo  no partido  liderado pelo engenheiro  Daviz  Simango, o edil de Nampula fala de oportunistas. Sobre os desertores que, em  2014, queixavam-se da “importação”, da Beira, de amigos e familiares do presidente do partido para lugares cimeiros nas candidaturas do MDM  a deputados, Amurane diz que tribalistas são aqueles que achavam que, com a vitória do MDM  em Nampula, tinha chegado a sua vez. Diz que não houve colocação massiva de quadros do MDM de fora de Nampula.

Sobre os recentes dissidentes que formaram o MAMO, diz que são indivíduos de conduta duvidosa que, quando se apercebeu do seu oportunismo no município, tratou de expulsá-los. Diz  que  o  MDM de  hoje  não  é o mesmo de há dois anos e meio, quando aderiu e, no actual partido, vê um crescimento  enorme  e um futuro  risonho.

 

“Apresentamos alternativa, sem atirar balas”

Muhamudo Amurane  falou ainda do nível  de  execução  do  seu  mandato, dois anos depois da tomada  de posse. Faz um balanço positivo. Destaca a área de  saneamento,  mas  também de infra-estruturas como aquelas que apostou  nestes  primeiros  dois  anos. Fala de vias de acesso construídas, mercados  e  meios  de  aquisição  de lixo. Um  caminho  que não  foi fácil: “logo em  2014  encontramos  não  só uma série de dívidas enormes, mas também uma série de problemas, falta de meios e uma cultura praticamente corrupta no relacionamento do município com os operadores económicos”. Diz que, quando  chegou à edilidade, todos os meios a nível da recolha de resíduos sólidos eram alugados.

“Não compreendemos como era possível uma  cidade  tão  grande  não tivesse um  mínimo  de meios  para a recolha de resíduos sólidos. E encontrámos dívidas enormes de processos de aluguer de viaturas sem, contudo, ter um  suporte  que justificasse esses serviços de aluguer, uma vez que a cidade estava abarrotada de lixo”, acrescenta.

Foi por isso que se definiu como prioridade  a recolha de resíduos  sólidos, prossegue  o edil segundo  o qual em 90 dias foi possível trazer boa imagem a Nampula,  com aquisição paulatina de meios de recolha de lixo, mas também através da criação de grupos de associados em diversos cantos da cidade para a limpeza.

Diz que a sua grande decepção está na descentralização dos serviços de saúde e de educação. Lamenta  os argumentos do ministério da Administração Estatal  que insiste que Nampula, à  semelhança  de  outros  municípios nas mãos da oposição e não só, não tem capacidade para gerir serviços básicos, da mesma forma que deplora, por exemplo, que as receitas das multinacionais  que operam  na província sejam todos canalizados para Maputo, devido à centralização.

Recuou a 2014 para dizer que, no primeiro ano do seu mandato, não foi fácil a convivência política com os restantes órgãos do Estado em Nampula, incluindo  os centrais, mas diz que a partir de 2015, com o novo governo, o cenário mudou  para a melhoria. Fala de abertura  e uma  convivência cada vez menos conflituosa.

A dado passo, comenta sobre a causa do MDM, aproveitando  deixar recados à governação frelimista que dura 41 anos.

“Os moçambicanos  almejam ver melhoradas  as condições das suas vidas, principalmente, no  processo  de  governação. Quando  me candidatei  tinha  consciência  de  que  ia enfrentar uma série de desafios, mas não foi e não é por ter esses desafios que nos colocamos  numa   situação,  nem   de defensiva, nem de ofensiva, antes pelo contrário, encararmos esses processos como normais  em prol do desenvolvimento   das  vidas  moçambicanas”, diz, lembrando  que  depois  da independência   os  moçambicanos   foram habituados  a um discurso de que era necessário libertarem-se  de opressão colonial e dominação estrangeira. “Fomos  alimentados   de  que  já  era oportunidade  de  nos  sentirmos   livres  e  conduzirmos   os  nossos  destinos,  mas  esses processos  ao  longo do tempo foram sempre frustrados, nomeadamente, as expectativas do povo. Sentimos que havia falta de liberdades e que tudo  era ditado  por um  grupo  menor,  sem  olhar  os anseios das comunidades  que, ao longo do tempo, foram se manifestando  de várias formas e nós optamos por esta oportunidade democrática, avançando  com  um  projecto  político  e sem precisarmos de machucar ninguém, muito menos atirar balas, mas sim apresentando  alternativa viável do processo   municipal,   mas   também a nível nacional  e aí abraçámos  este projecto político do MDM e conseguimos conquistar poder sem recorremos à violência” assinala, lamentando: “só que os nossos adversários nunca perceberam  esta metodologia  porque provavelmente  não tenham  a cultura de conviver democraticamente e ir avançando na solução dos problemas através de processos democráticos”.

Savana


Warning: A non-numeric value encountered in /srv/users/noticias/apps/noticias/public/wp-content/themes/ionMag/includes/wp_booster/td_block.php on line 1008

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here