Somora Machel ao andar não pisava o chão ao acaso

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Transcorridos trinta anos após a sua morte, o pensamento, vida e obra de Samora Machel foram transmitidos por sua viúva, Graça Machel, em palestra organizada pelo Instituto Superior de Relações Internacionais que juntou, semana finda em Maputo, a comunidade académica e diferentes individualidades.

Algumas revelações à volta da sua personalidade animaram o encontro: Samora… não se vestia ao acaso, ao andar não pisava o chão ao acaso”.

Samora Moisés Machel atingiu altos níveis de liderança na luta armada de libertação de Moçambique e, mais tarde, tornou-se chefe do estado moçambicano até à altura da sua morte, em Outubro de 1986.

Estas conquistas, afirmou sua viúva, devem-se às escolhas e à tenacidade de Samora, um cidadão de origem simples, facto que atesta que “não importa em que família se nasce, nós escolhemos o que queremos ser”.

Graça Machel afirmou que seu companheiro desenvolveu alguns pilares de pensamentos chave da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), no contexto da luta armada de libertação de Moçambique.

Alguns desses pensamentos continham a necessidade premente de libertar a pátria dos moçambicanos: “Estudar, Produzir e Combater”, mesmo assim, “conforme podem constatar, o conhecimento científico estava em primeiro lugar e era visto por ele como fundamental para que todos os que estavam envolvidos na luta se tornassem produtores… (ora)o combate armado era um instrumento para se adquirir liberdade de pensar e escolher o nosso futuro, liberdade de sermos nós próprios, de decidirmos sobre o que somos…”.

Com efeito, mostrava-se necessário educar o homem para vencer a guerra, mas, ao mesmo tempo, educar o homem para uma sociedade nova “livre da opressão, da subserviência, onde as pessoas pudessem abraçar-se; viver em comunidade, o que hoje chamam de inclusão, portanto, isto vem da altura em que construiu os pilares basilares”, afirmou, tendo, nesta base, chamado a atenção para a importância de se assimilar criticamente as ideias e experiências dos outros, absorvendo o que nos for benéfico.

Para ela há que vedar espaço para o servilismo e, ao mesmo tempo, “transmitirmos aos outros povos o fruto das nossas reflexões, das nossas práticas… (então), a informação recebida de outros cantos do mundo deve, pelo contrário, servir de motivo para reforçarmos a nossa identidade como moçambicanos”.

Aliás, conforme referiu, a criação de uma sociedade comum, onde se dá voz e acolhe-se a participação de todos os membros era um dos princípios basilares de Samora.

É nesta perspectiva que Graça, a seu tempo, defende o alargamento do espaço “para o camponês exprimir-se na primeira pessoa, em qualquer aldeia, qualquer bairro, facto valorizado nos tempos de Samora. Nessa altura, havia espaços para concertações nas Assembleias do Povo. Lá as pessoas falavam das prioridades da sua aldeia, do seu bairro o que era mais tarde encaminhado para assembleia da localidade, depois do distrito e por aí em diante”.

Conforme observou, esta organização denota que o poder deve ser exercido por todas as pessoas, “é preciso criar espaço para que as pessoas digam “nós”, pois faz parte das nossas organizações tradicionais”, contrariamente à centralização do “eu”, que é característica do europeu. Aqui em África, continuou Graça Machel, tudo funciona no colectivo, “foi assim como o primeiro estado organizou a sociedade”, anotou.

SAMORA AMANTE DA PAZ

Actualmente, o país passa por momentos de tensão devido ao conflito armado, que tem ceifado a vida de civis e emperrado o desenvolvimento do país.

Decorrem negociações entre o Governo e a Renamo, sob mediação internacional, de modo a gerar entendimento entre as partes e extinguir os ataques cada vez mais sistemáticos.

Trata-se de medidas que até ao momento não geraram lucros para a nação. Na sequência disso, Graça Machel posiciona-se e orienta afirmando que “são necessários actos de coragem, muita coragem”, para acabar com a guerra.

Para o conhecimento de alguns participantes à palestra, a activista social, disse que a primeira vez que se tentou negociar com a Renamo foi em 1984, sob liderança de Samora. Facto agravante é que, “hoje estamos em 2016 e o conflito continua…”. Por tal, lançou um pedido à actual geração para que resolva as diferenças existentes entre os moçambicanos: “apelo à vossa coragem, é preciso inverter o cenário, fazer o impensável para trazer a paz”. Essencialmente a paz deve fazer parte do dia-a-dia de cada moçambicano. São ensinamentos que vêm desde os tempos de Samora Machel, que, “em defesa da soberania negociou com o inimigo (o regime do apartheid), na altura algo visto como impensável”, apontou.

não pisava o chão ao acaso…

Durante a palestra foram registadas várias intervenções em torno da exposição de Graça sobre Samora, pensamento, vida e obra. Destaque foi dado às máximas que pouco depois da independência eram estampadas em murais de escolas, hospitais e vias públicas, a título de exemplo, “Fazer da escola a base para o povo tomar o poder”.

Referências à simpatia nutrida pelo povo por estas mensagens foram feitas no momento.

Graça Machel revelou que esse povo, que sempre esteve nas prioridades do seu marido, foi o mesmo que trouxe de volta Samora, nos mercados e nos transportes semi-colectivos, através de discursos gravados em discos compactos (cd) e cassetes áudio.

Outras intervenções, como a de Silvério Ronguane, roçaram o lado particular do primeiro estadista moçambicano. O académico interveio para observar que Samora “era conhecido como homem de bom-gosto (na forma de se apresentar ou de se trajar) ecomo um dos maiores oradores políticos, do ponto de vista linguístico-literário”.

A reacção da viúva do primeiro presidente de Moçambique independente veio de pronto e para arrancar risadas de todo auditório: “É verdade! Não se vestia ao acaso e ao andar não pisava o chão ao acaso. Tinha consciência de como andar. Os jovens dessa época sentiam orgulho de tê-lo como presidente”.

Segundo observou, Samora Machel tinha, igualmente, um grande domínio do seu pensamento. Era o homem de substantivos, e, “não precisava muito de se explicar, o que dizia estava claro”, afirmou.

Texto de Carol Banze

Jornal domingo


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